sexta-feira, 21 de outubro de 2016

“Mais Burro que o Burro, só aquele que pensa que o Burro é Burro.”

Na passada semana, e logo após as eleições para a Assembleia Legislativa Regional, deu-se um surto de “bertoldice” a vários comentadores e colunistas que conhecem tanto os Açores como eu sei falar mandarim.

Presunçosamente, “balbuciaram” tantas certezas sobre os Açores que não conhecem que só me restou efetivamente “fechar os olhos, baixar e abanar a cabeça” como um verdadeiro sinal de vergonha que senti em ouvir e ler tamanha tarouquice.

 João Quadros, um cronista que até estimo bastante, escreveu ironicamente sobre um tema que me preocupa de forma avassaladora, a percentagem de não-açorianos que não conhecem nada dos Açores e que teimam em assumir que só a capital é que tem o condão da inteligência. Possivelmente, terá mesmo sido influenciado pelas declarações quase em direto do comentador da SIC Luís Delgado sobre os resultados eleitorais, e pela capacidade que julgou possuir em imaginar “explicações” para o nível de abstenção. Esqueceram-se, pressupondo eu que alguma vez o souberam, foi efetivamente do que são os Açores.

A cultura açoriana é deveras distante da cultura da Capital, aliás, o acesso á cultura é de tal forma diferente que nos Açores é transversal a todos os seus habitantes independentemente da classe social em que se encontram. A música faz parte do seu quotidiano, tal como a literatura, os museus, e as viagens. Sim, é verdade, possivelmente os açorianos viajam mais frequentemente por esse mundo fora a conhecer novas culturas do que os ilustres João Quadros e Luís Delgado viagem entre Lisboa e a Margem Sul!

Por outro lado, o uso do analfabetismo dos habitantes dos Açores (tal como apregoado por João Quadros e Luís Delgado) como um dos factores da abstenção é de uma total abstenção de inteligência. Enganaram-se redondamente no quadro clínico, pois grande parte da abstenção é também derivada da grande maioria dos jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 26 anos estarem fora da sua residência por estarem efetivamente a se formar academicamente nas universidades espalhadas por esse Portugal fora.

É que nos Açores, as Universidades não se encontram disponíveis de 20 em 20 passos como supostamente “as urnas” do João Quadros.

Mas numa coisa estamos os dois de acordo, “na verdade, a maioria dos portugueses mal sabe da existência da assembleia legislativa açoriana”, tal como também não sabe nada sobre a história portuguesa ou de matemática, de geografia ou cultura em geral (atenção que a casa dos segredos não vale!).

Aliás, a maioria dos portugueses nem tão pouco sabem sobre Assembleia da República, sobre o Primeiro Ministro ou o Presidente. Se calhar, poucos saberão que existem mais instrumentos para além da flauta, poucos saberão que existem mais desportos para além do futebol ou até, efetivamente, pouco saberão sobre a necessidade de lutar por aquilo em que acreditam.

A asnice costuma ter limites, mas como dizia Wagner Pompéo: “Mais Burro que o Burro, só aquele que pensa que o Burro é Burro.” 







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