sexta-feira, 18 de novembro de 2016

«Um presidente não deveria dizer isto…» mas disse!


Durante oito anos ouvi sistematicamente dizer que vivi acima das minhas posses e com dinheiro que não tinha! Durante oito anos, fui acusado tal como todos os portugueses, de esbanjar o que podia e o que não podia, de não me saber governar e de isso ser um hábito comum a todos os “europeus da periferia”.

Em prol da Europa e dos seus “padrões”, debruçámo-nos, rebaixámo-nos e fomos aceitando que o enxovalho com que erámos diariamente atacados se tornassem numa “efetividade” da nossa maneira de ser. Quem nos supostamente “defendia”, aceitou de bom agrado todo esse “linchamento popular” e, por sua autoiniciativa, açoitou a população com um número maior de chibatadas do que aquelas que haviam sido decretadas. Tudo, diga-se, em prol do cumprimento de uma das maiores regras da União Europeia e da sobrevivência do Euro, o Défice!

A Europa, que tanto apontou o dedo aos países do sul, é hoje posta a nu através do livro «Un président ne devrait pas dire ça» (Um presidente não deveria dizer isto) de dois jornalistas franceses com base nos testemunhos de François Hollande. Ao longo das suas “horripilantes” páginas, o Presidente Francês, afirma que a França pôde usufruir de condições especiais no que respeita ao incumprimento do seu défice, condições essas, que foram aceites através de “acordos secretos” entra a União Europeia e a França no ano de 2012.

De certo modo, o que se pode depreender de toda esta “confusão literária”, é que os tão proclamados europeístas franceses fizeram tal como a Grécia fez, isto é, “martelaram” as suas contas orçamentais, mas neste caso, com um pequeno e minúsculo pormenor que fez toda a diferença, fizeram-no, mas fizeram-no com a autorização do núcleo duro do centro da Europa.

Mas ainda mais grave que isso ser feito, é François Hollande assumir essas regalias dizendo que é “um privilégio dos grandes países (…) nós dizemos: nós somos a França, nós protegemos-vos, temos forças armadas, uma força de dissuasão, uma diplomacia (…) Eles, os europeus, sabem que precisam de nós e, portanto, isso paga-se”.  

E infelizmente nesse aspeto, François Hollande teve e tem razão. Existe um custo para pertencer a esta Europa e Portugal pagou e paga bem caro. Paga, através das milhares de pessoas que viram as suas pensões serem afetadas. Paga, através de tantas outras a quem os salários foram cortados, e continua a pagar através de mais outros tantos a quem o salário deixou de existir por terem literalmente sido “enviados” para o desemprego.

No fim de contas, exigir-se-ia no mínimo, que aqueles que supostamente impuseram austeridade para nos defender, viessem hoje dizer, por que motivo haveremos nós de continuar a aceitar as condições contraproducentes para o crescimento económico que a europa nos obriga a tomar quando a França não é obrigada a cumprir as metas do défice? Ou, porque é que a Alemanha que ano após ano ultrapassa o superavit comercial legalmente estabelecido não é também sancionada? Mas mais especificamente, que nos venham explicar o motivo pelo qual um português ou um grego têm de fazer sacrifícios enormes em prol da Europa e um francês, que afinal está nas mesmas condições que esses “povos da periferia”, não tem essa obrigação?
Este episódio, com que esta europa de retalhos nos presenteia, só aumenta mais as razões pelo qual não consigo nem posso aceitar que nenhum outro europeu me volte a dizer que eu vivi, vivo ou viverei acima das minhas possibilidades financeiras.   



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